Contos
Estrangeiros PDF Imprimir E-mail
Dom, 20 de Maio de 2012 00:48

O mar estava calmo, naquela noite. Na pequena embarcação se acomodavam seis homens, todos silenciosos. Viajavam tolhidos de medo, evitando olhar para as sombras vizinhas.

Ainda era possível pensar no litoral, na cidadezinha inflando de mansões pela areia, enquanto os nativos catavam caranguejos. Os estrangeiros chegaram com o único propósito de gastar dinheiro em orgias festejadas ao sol-pôr. Sobre eles, criaram-se lendas, exageros: não se podia olhar para um, sem temor de ataques, risos frouxos, corpos ébrios... E foi talvez pelo susto que todos se submeteram.

Antes dos homens, foram as mulheres, pioneiras em tudo. Bateram às portas douradas, oferecendo serviço quase gratuito __ a paga era entrar no outro mundo, onde existiam salões com bandejas de cristal. Sentiram um breve frenesi ao pisarem (descalças, como sempre) tapetes feitos de pele de urso. Viram os olhos transparentes dos forasteiros, a boca rubra daquelas damas, que não podiam ser simples mulheres __ e prostraram-se aos seus pés, já escravas.

Os machos seguiram pela natural busca das companheiras, confinadas em mansões, agora babás, cozinheiras... Acabaram ficando, como pedreiros, mecânicos, pintores ou paus-pra-todo-galho. Também não cobravam nada, exceto o prazer de ouvirem falar os sons misteriosos, oráculos. As crianças eram as únicas a ficar de fora, por nada oferecerem, a não ser um impulso destruidor de taças e espelhos. Cresceram meninos e meninas meio selvagens, pela praia: os mais velhos ensinavam qualquer coisa aos menores, na ausência constante dos pais. E aprenderam a busca e captura dos crustáceos, a subida nos coqueiros, o trançado das redes e chapéus. Andavam com o sal no corpo, esperando o dia de entrarem, também eles, nos lares estrangeiros.

Não foi assim com todos, porém. Na cidade inteira, contavam-se seis que não queriam seguir os outros. Desde pequenos, formavam um grupo à parte, visto de revés pelos restantes. Faziam, no fundo, uma ameaça, retorno ao primitivo. E se de repente ninguém mais quisesse estar nas mansões, que seria deles? Estariam condenados à eterna vida de lama e peixes, vento e céu, sem nunca terem o gosto de pisar a laje fria e ver as cores de um teto bem traçado. O sonho de seus pais, a felicidade a duras penas conseguida __ e a esperança de, em várias gerações, estarem eles tão estrangeiros quanto os próprios, em língua e costumes __ tudo perdido.

Um dia, os seis decidiram desertar. Eram os estranhos impossíveis naquela terra. Combinaram a viagem, o bote, e todos souberam, e foi grande o alívio. Na noite da partida, houve até despedidas amáveis, que não esconderam certo rancor. Os outros sentiam (estava claro em seus rostos) a perda de saírem aqueles homens, ainda sangue seu, ainda gente sua, a estabelecer-se noutra parte. Imaginavam que, mesmo depois de anos, um deles contaria: “Nasci em tal cidade”. Ideal seria desaparecer com os estranhos de uma vez, varrê-los como se faz com os maus pensamentos.

Adivinharam os seis, aquelas idéias. Por enquanto, só um pressentimento, sobre as ondas quentes. Não esperavam que os nativos tivessem o último gesto de retorno às origens, reaprendendo a feitura de arco e flecha, extraindo o veneno do sapo. Agora, apenas o medo, entrecortado de recordações como estrelas, fura a memória. Os seis têm toda a morte para esquecer. Nesta noite de janeiro, ninguém mandará barcos de pesca recolherem seus corpos perdidos no mar.

 
Aqueles homens tristes PDF Imprimir E-mail
Dom, 20 de Maio de 2012 00:48

Deitou-se ao lado da mulher, como se se preparasse para morrer, sem uma palavra, um gesto de carícia, qualquer menção de repetir cotidianas cenas de brutalidade e desejo. Fechou os olhos e imobilizou-se. Queria apenas pensar, pensar ilimitadamente, desprender-se de todos os laços palpáveis de seu conhecimento, perder-se por corredores e labirintos, por horizontes e profundezas. Desordenar as coisas, as pessoas, o mundo. Fazer redondos os quadrados, aparar arestas, encrespar as formas planas, reduzir a minúsculos montículos as grandes montanhas, agigantar-se. Como em noites passadas.

Não conseguia compreender como e por que tudo se deformava e nunca teve coragem de contar nenhuma de suas descobertas a ninguém. A não ser as mentiras menos assombrosas: aquela porção de frutas amontoadas, a paulada na cabeça de fulano, a tempestade, os monstros. Umas já se haviam perdido no tempo ou tinham ocorrido com outras pessoas. Às vezes discutiam, se ameaçavam e até se matavam, raivosos, incapazes de ouvir tantos disparates, insultos, desafios.

E a mulher, os filhos, os companheiros de caça, o resto será que não saía, um pouquinho só, além dos limites da mesmice? Ou também sentiam medo de contar novidades?

De noite, depois de fechar os olhos, entregar-se ao invisível, tudo virava de cabeça para baixo, transformava-se, confundia-se. A mulher se fazia outra, os filhos morriam, sumiam, se batiam contra feras. Os bichos se devoravam, violentos, estraçalhavam-se, sangrentos. Muitas águas, muito fogo, ventanias de arrastar homens e animais. E nada era verdade, quando não era mentira. Sua mentira.

Não, talvez não fosse bem assim. De dia, os olhos viam o mundo e o mundo existia. De noite, os olhos de dentro viam o mundo, porém um outro mundo.

Abriu os olhos, levantou-se, suado e trêmulo, e olhou para as estrelas que piscavam no céu e para o fogo que ardia ao redor das cabanas. A mulher dormia, os filhos dormiam, todos dormiam. Deu dois passos, escutou o grito dos bichos e sentou-se numa pedra. Onde andavam as milhares de pessoas de minutos atrás? Onde estavam aquelas construções enormes, feito cabanas sobre cabanas? E os objetos que se locomoviam, feito tartarugas de rodas, a conduzir gente, às carreiras? E os outros que voavam, feito pássaros? O que fazia tanta gente ajoelhada, diante de imagens de barro e homens que falavam de “morada do céu”? E por que quase todos não paravam de suar, o dia todo a derrubar árvores, cavar o chão, semear a terra, bater ferros, sob as ordens de uns poucos? Que diabo significavam pedaços de papel coloridos e numerados que aqueles recebiam dos chefes e trocavam por comida, roupa, objetos variados de propriedade dos mesmos chefes?

O sol se anunciou vermelho e encantatório por detrás das montanhas. E se lá vivessem aqueles homens tristes?

 


Página 1 de 8