Vicente Jr PDF Imprimir E-mail

Vicente Jr.

Vicente Jr é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e graduado em Letras desde 1999. Fundador do Grupo Rosa Literária, última agremiação beletrista do século XX em Fortaleza, no âmbito da UFC. Organizou poemas de fim de século que resultaram em um livro marginal intitulado: Ramalhete – caderno de letras (1999). Idealizador da Cia. Teatral Moreira Campos, e dos projetos Vestibular em Pauta e Vestibular em Cena, especializando-se em adaptações teatrais de grandes obras literárias. Formado pelo Instituto Dragão do Mar, é teatrólogo e dramaturgo com diversas peças e adaptações para o teatro das quais destacam-se pelos prêmios conquistados A Morte e a alta costura, Agosto e Os sertões.

Poeta, cronista, contista e ensaísta, espera o momento certo para a publicação de um livro de poemas (talvez ao final desse ano). Amante do Sobrenatural desenvolveu sua dissertação de mestrado sobre a origem e a evolução do Fantástico no Ceará (Aspectos do fantástico na literatura cearense – 2003), onde assinala o início do Fantástico em nosso estado com o conto O ar do vento, ave-Maria! (1887), de Oliveira Paiva. Em meio a tantos estudos, formulou uma teoria sobre a “utilização da cor verde na arte e na literatura fantástica”, uma das últimas teorias sobre o gênero. Estuda atualmente a presença do Fantástico na Poesia, contrariando Todorov e outros críticos avessos à idéia. Com Márton Tamás Gemes idealizou e fundou o GRELF, em abril de 2002. Em 30 de maio de 2006, organizou o I Encontro Cearense de Literatura Fantástica - ECELF, na UFC, com a presença dos principais autores desse gênero no Ceará. Ensinou na Universidade Federal do Ceará, e está atualmente na Universidade Vale do Acaraú (UVA) e na Faculdade Luciano Feijão. Teoria sobre o Fantástico.

A incidência do verde no gênero Fantástico


PAULA JÚNIOR, Francisco Vicente de

Levando em consideração a carga semântica das cores, em todo tipo de arte, resolvemos investigar a utilização das mesmas, principalmente da cor verde, na Literatura Fantástica moderna e contemporânea. Assim, percebemos a presença do verde reforçando a perspectiva sobrenatural em diversos autores. Partindo das observações de M. Lurker (1997) sobre as cores, percebemos que o verde tem ligação estreita com o sobrenatural porque, em muitos casos, e em muitas culturas, representa o mal, o diabo, a putrefação, o extramundo e até a morte. Nessa linha de raciocínio, e investigando a utilização do potencial semântico e simbólico das cores, descobrimos que o verde , nascido tecnicamente da fusão do azul ( cor do surrealismo e da imaterialidade ) com o amarelo ( cor da materialidade ), serve ao Fantástico por ser esteticamente propício a uma relação com o Sobrenatural, representando em textos do gênero a presença do que é surreal ( gnomos, duendes,fadas, bruxas etc. ) no seio da legalidade e da materialidade cotidiana. Depois do aparato teórico, quando recorremos aos principais críticos do Fantástico ( T. Todorov, L. Vax, F. Furtado, H. P. Lovecraft e I. Bessierè ) procedemos a leitura e organização de textos que apresentam essa prática, ou seja, que se utilizam do verde para simbolizar o sobrenatural, o onírico, o extramundano e todas as temáticas do gênero. Por conseguinte, foram listados excertos de textos como Os verdes abutres da colina, de José Alcides Pinto; Antes do baile verde, de Ligia F. Telles; O caminho de Poço Verde, de R. de Figueiredo, dentre outros, que comprovam a utilização do verde numa poética do fantástico, a partir de sua diacronia, enfatizando o que acontece principalmente nas manifestações contemporâneas. Assim, dentro dessa perspectiva semiológica preconizada por Locke, Pierce e Cassirer, e de todas as simbologias que as cores possam nos sugerir, asseguramos que o verde, atualmente, é a cor do Fantástico. Observamos ainda que isso pode ser comprovado não apenas na Literatura, mas em toda a arte imagética, desde os quadros insólitos de Bosch, aos ícones da sétima arte como O Exorcista, Hulk e Matrix, por exemplo.

1 Professor de Literatura Brasileira e mestre em Literatura pela UFC.
2 Ensaio completo sobre as cores no site www.literaturafantastica.pro.br

Poesia

Rosângela
Tu és rosa
E Anjo
A um só tempo.
És rosa
Porque és bela
És anjo porque me tentas
Poema da outra parte
Toda pessoa tem duas partes
Uma que apenas anda sem saber aonde vai
Outra que vai sem saber apenas por onde anda
Uma que traz pela boca a noite inteira sem lua
Outra que tem nos olhos as metades de outra banda
Não sei a cor do amor – poema dos mais estranhos
Só sei que dorme comigo e que tem olhos castanhos

Poesia

(Meu vampirinho preferido)

Phyllipe Victor (aprendiz de poesia)

Pai, eu quero um copo
Para pegar a lágrima
E botar dentro.

Eu quero uma caixa de gato
Cheia de sapato
Para prender o poema

Quero um boneco que fala
E anda de bicicleta
Para matar o poema.

Poemas

Poema 2
Vicente Jr.

Vem de dentro de mim e de outra parte que houver
Uma vontade estranha de ser feliz...
Um desejo incontrolável de fazer

Todas as coisas que não fiz...
De falar um pouco sobre a vida.
É, sobre a vida,

Mistério insondável.
Mas o que seu eu da vida
Que ela não me conte por si mesma?

E para que pensar na vida se eu
Nem sei bem o que é viver.
E para que pensar nos outros

Se a única pessoa digna de reflexão
Que eu conheço no mundo inteiro sou eu
Sempre atrás dessa tal Felicidade.
Felicidade de árvore, Felicidade de Livro...

Bobagem
Para que lançar um livro
Quando não há mais o que escrever
E muito menos gente para ler.

Jamais plantarei uma árvore
Porque sei que o mundo
Demora muito a se acabar

E também sei que essa conversa de árvore
É palhaçada do green peace
Quanto a ter um filho...

Minha outra parte já o tem
E corre pelas poças d´água
Assoando o nariz com um braço
O outro segura o calção

Vai risonho como o sol na primavera
E pensativo como as tardes de outono

Gênio por ele mesmo
Joga de números com as palavras bonitas
Que brincam em sua boca

E diz cada palavrão
Mas diz de um jeito tão lindo
E tão sincero

E tão meigo
Que o pôr-do-sol de qualquer tarde
Se ri da sua inocência

Um filho!
Já pensei por muitas vezes
Se sou eu que o tenho a ele
Ou se ele é que me tem a mim.
E me cuida e me conta histórias
E me brinca no cantinho de mel dos seus olhos.

 

Fortaleza
Vicente Jr.

Linda é tua história
Inocentes são tuas luzes
Que guiam na madrugada
O gringo e o vagabundo
E até mesmo um reles cão
Que sorrateiro se esconde
Com medo dos grandes carros
Que o tal progresso trouxe
Quisera eu minha amada
Que o tempo voltasse atrás
Trazendo a foto perfeita
Da índia perto do cais
Da ponte que já foi nossa
Que agora é dos ingleses
Tu és doce até mesmo
Nas noites do calçadão
Onde meninas da terra
Inocentes como tu
Tentam melhorar de vida
Se vendendo a qualquer um
Virgem iluminada
Tu és doce com certeza
Mas cuida de ter firmeza
Nos novos passos que dás.

Canção de amigo
Vicente Jr.

Existe um ser que te adora
Que te pertence e acompanha
Segue teus passos faz manha
Pobre coitado não fala
Apenas mia, senhora

Ele enroscado te implora
Fazendo mimo em tua veste
Pedindo o que tu não destes
Pobre coitado não fala
Apenas mia, senhora

Me responda sem demora
Se conheces bicho e fato
Que certamente é teu gato
Pobre coitado não fala
Apenas mia, senhora

Conto

Dream Machine

Pronto.Agora já estava funcionando. Só precisava encontrar alguém para testar.Colocaria um anúncio. Muita gente gosta de ganhar um dinheirinho extra, servindo de cobaia. Mas por que testar em alguém se poderia testar em si mesmo? Resolvido. Amanhã mesmo já teria o resultado. Esperaria chegar a noite? Pegou com cuidado a caixa preta. Reuniu os conectores. Louvou ter adaptado para eletricidade. O uso de pilhas ou baterias de carro pareceu-lhe primitivo. Foi para o quarto. Instalou a caixa preta sobre o criado-mudo. Desenrolou os conectores e os colocou sobre o travesseiro. Um preto, um vermelho. Um preto, um vermelho. Não resistiu. Ligou à tomada e apertou o power. A luzinha verde brilhou intensa, penetrante, quase incômoda. Mas era linda. Estava funcionando. Cama arrumada. Nenhuma dobra. Perfeito! Banheiro. Banho. Pijama. Cabelo arrepiado. Pente. Melhorou. Sala. TV. Cozinha. Jantar. Comida pesada. Era isso mesmo. Banheiro. Dentes. Ansiedade. Sala. Luz acesa. Um livro? Não. Hoje é melhor. Corredor. Luz apagada. Entrou no quarto com uma sensação de frescor. Corria um ventinho frio vindo da janela. A lua não brilhava lá fora, tímida diante do que iria acontecer. Coisa nunca vista. Súbito! Detalhe. O cabo. Sala. Corre. Corredor. Volta ofegante. Conectado. Perfeito. Recuperou o fôlego e foi se acalmando. Não era bom tanta expectativa. Talvez não desse certo. Nada demais. Daria certo. Tinha que dar. Deitou lentamente. Ventinho correndo. Cheiroso lençol. Olhou para a caixa preta. Mão esticada. Conectores na testa. Adesivos. Dedo no power. Luz verde incessante. Relaxou. Olhos fechados. Olhos abertos. Parede. Linhas do teto. Parede. Olhos fechados. Olhos abertos. Distância. Proximidade. Pés lá na frente. Parede. Luz verde. Teto. Olhos fechados. Olhos abertos. Olhos. Luz verde incessante. Luz verde. Luz verde. Luz verde incessante. Luz incessante. Luz. Só luz. Infinito.(...) Nuvens cobriam o chão. Voava. Mãos gigantes o suspendiam. Um armário de portas abertas. Preso no escuro. Nada lá dentro. Nuvens. Olhos enormes no céu. Armário. Girassóis. Um campo florido de sol e perfumes. Faca brilhando. Facadas no peito e na barriga. Saiu do armário correndo e caiu no infinito. Um rio, água correndo, nadando. Piscina muito azul. Espreguiçadeira e ela deitada. Gota de água escorrendo em seu corpo. Top-less. Seios pontudos. Parou na beira da piscina azul e ficou olhando. Nariz afilado. Boca entreaberta. Longilínea. Caminhou para a água. Beijo despudorado, língua passeando entre os dentes. Seios pontudos no peito, mãos passeando no corpo. Ereção. Mãos caminhando. Biquíni afundando na água. Encaixe. Movimentos dentro d´água. Muda de lado. Costas. Faca nas costas. Nuvens. Riacho. Armário. Nuvens. Língua. Placa com letras desordenadas. Leitura impossível. Não faça isso. (...) Olhos abrindo. Olhos abertos. Madrugada. Teto. Linhas do teto. Parede. Luz verde incessante. Luz verde. Sorriso. Riso contido. Pigarro. Conectores arrancados. Lençol no chão. Levantou-se. Andou lentamente até o vídeo. Funcionando. Stop. Eject. A fita pulou para fora como se tivesse algo para dizer. Gravou. Fita pra dentro. Liga TV. Senta no chão. Controle-remoto. Play. Silêncio. Verticais coloridas. Luz. Só luz. Infinito.(...) Nuvens cobriam o chão. Voava. Mãos gigantes o suspendiam. Um armário de portas abertas. Preso no escuro. Nada lá dentro. Nuvens. Olhos enormes no céu. Armário. Girassóis. Um campo florido de sol e perfumes. Faca brilhando. Facadas no peito e na barriga. Saiu do armário correndo e caiu no infinito... Luz verde incessante. Luz!

Dalmo Rosanno (Heterônimo de Vicente Jr.)